Acaba de ser lançado o livro “Cidade de São Sebastião: Poderes locais e o Santo Padroeiro do Rio de Janeiro (1680-1760)”, publicado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. O livro, de autoria de Vinicius Cardoso, é uma tese de doutorado em história social, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e vencedor do prêmio anual do Arquivo da Cidade. A publicação tenta explicar a permanência de São Sebastião como padroeiro principal da cidade e diocese, e as razões de sua preponderância sobre outros santos protetores postulantes, como Santo Antônio, São Januário e Sant’ Ana.

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24 de outubro de 2020

Livro sobre São Sebastião é vencedor do prêmio do Arquivo da Cidade

“Percebo que São Sebastião tem uma história ligada às origens da cidade, com um apelo, portanto, que outros possíveis padroeiros não teriam”

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Vinicius Cardoso: “capuchinhos reforçaram a relação do santo com a cidade”

Carlos Moioli / Testemunho de Fé – Fotos: Di Vargas Fotografia

Acaba de ser lançado o livro “Cidade de São Sebastião: Poderes locais e o Santo Padroeiro do Rio de Janeiro (1680-1760)”, publicado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

O livro, de autoria de Vinicius Cardoso, é uma tese de doutorado em história social, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e vencedor do prêmio anual do Arquivo da Cidade.

O autor também é músico, já participou de ministérios de música, foi batizado na Paróquia São Sebastião e Santa Cecília, em Bangu, e atualmente participa da Paróquia São Judas Tadeu, no mesmo bairro.

Perfil do livro

O livro aborda aspectos da história política e institucional do culto a São Sebastião como padroeiro principal do Rio de Janeiro, nos primeiros 200 anos da cidade, buscando investigar o processo de reconhecimento e manutenção de seu patrocínio. O trabalho analisa os discursos que enunciavam São Sebastião como patrono da cidade do Rio, especialmente aqueles que se referiam a uma proteção contínua do santo a ela, desde sua fundação, começando pela paulatina construção jesuítica dessa memória narrativa.

Em seguida, concentrando-se nos escritos dos principais representantes dos poderes civil e eclesiástico na localidade – Câmara Municipal, Cabido da Sé, governadores, bispos e funcionários régios – decodificam-se os discursos, práticas, espaços e ritos que sustentaram a veneração daquele mártir como padroeiro da cidade, e como foram usados nas relações entre poderes políticos e eclesiásticos, numa época de estreitos laços entre monarquia, catolicismo e o poder local, durante o Antigo Regime português. Uma das conclusões é a de que o apoio dos poderes seculares locais foi essencial – embora não exclusivo – para a defesa e manutenção do patronato oficial do santo sobre a cidade, reforçando-o e reatualizando-o em momentos-chaves, a despeito da concorrência de outros santos, ou das limitações que restringiram a expansão e popularização da veneração do mártir flechado na cidade do Rio de Janeiro.

O trabalho também aborda a crença de que o santo livrava a cidade das pestes e a relevância do recurso aos santos como uma das práticas do “bom governo”, especialmente quando trata da catedral e das procissões. Por fim, tenta explicar a permanência de São Sebastião como padroeiro principal da cidade e diocese, e as razões de sua preponderância sobre outros santos protetores postulantes, como Santo Antônio, São Januário e Sant’ Ana.

Em entrevista ao jornal Testemunho de Fé, o autor, Vinicius Cardoso explicou porque escolheu o tema, a devoção dos cariocas pelo santo mártir que ultrapassou os séculos, alguns dados históricos e interessantes e como conseguiu que sua obra fosse vencedora do prêmio anual do Arquivo da Cidade do Rio.

Testemunho de Fé (TF) – Por que escolheu esse tema?

Vinicius Cardoso – Na graduação, eu demorei a me decidir pelo tema do trabalho final, pois eu tinha pelo menos três opções. Eu já tinha começado o trabalho abordando outro tema, mas decidi trocar às pressas pelo tema da memória da fundação do Rio de Janeiro, que passou a me atrair mais. O que era para ser apenas um dos capítulos, tratando das representações de São Sebastião na memória da fundação da cidade, acabou se transformando no trabalho final. Daí em diante, fui apenas desdobrando e repensando o tema. Mantive-me nele porque percebi que havia alguns aspectos pouco abordados por historiadores, e porque era um tema interessante para a história da cidade.

TF – O que o leitor pode encontrar na obra?

Vinicius Cardoso – O livro é uma tese sobre a relação que, nos primeiros 200 anos da cidade, os poderes e instituições aqui representados (tanto daqui quanto de Portugal, tanto eclesiásticos quanto da governança) mantinham com a veneração e a memória oficiais de São Sebastião no Rio, reconhecendo-o e mantendo-o como padroeiro principal da cidade e diocese, mesmo sob certas restrições e apesar da concorrência de outros santos. Não é um estudo que fala da experiência cotidiana de devoção ao santo – para o período histórico em análise, o livro não nega as experiências de pessoas comuns, mas também não as pressupõe nem exagera. Entretanto, o livro busca entender como e para quê pessoas e grupos em situações de poder empregavam aspectos do culto a São Sebastião como padroeiro e protetor milagroso do Rio em diversas situações.

O carisma de São Sebastião como protetor nas guerras também era invocado, sobretudo no Rio de Janeiro”

Para isso, eu começo reconstituindo a formação de uma memória que assegurava milagres do padroeiro na fundação da cidade, em especial a aparição do santo como soldado na chamada “Batalha das Canoas”. Trato também das afirmações de que o santo protegia a cidade de epidemias e invasões estrangeiras nas décadas seguintes, e examino as implicações desse referencial para os lugares e tempos da veneração – catedral e procissão. Termino tratando da eleição de Santa Ana como segunda padroeira pelo bispado, em 1760, e sobre como São Sebastião prevaleceu naquele contexto. As conclusões deixo que os leitores descubram e avaliem na leitura do livro.

TF – Como se desenvolveu a devoção dos cariocas por São Sebastião nos vários períodos e fases do Brasil, desde as origens da cidade, passando pelos tempos da Colônia, Império, reinados, o início da República e nos tempos atuais?

Vinicius Cardoso – São Sebastião era venerado em Portugal (e em vários lugares do Ocidente) como protetor contra epidemias. Na América portuguesa, pode-se dizer que essa era a sua principal requisição por parte, principalmente, dos poderes da governança e dos missionários. Capelas do santo eram mantidas, algumas vezes com a renda das câmaras municipais ou da Provedoria da Fazenda das capitanias, como forma de manter a estima desse protetor e conter epidemias. Isso aconteceu, por exemplo, em Pernambuco. O carisma de São Sebastião como protetor nas guerras também era invocado, sobretudo no Rio de Janeiro, mas, em outros lugares do Brasil colonial creio que tenha prevalecido a veneração antipeste. No Rio, tenho indícios de que o culto a São Sebastião foi modelado também de forma a atrair indígenas, provavelmente por conta do caráter guerreiro da hagiografia do santo e, claramente, da iconografia da flecha.

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No Segundo Reinado, os capuchinhos reforçaram a relação do santo com a cidade, pondo, porém, mais ênfase na relação com o povo simples. São Sebastião também foi invocado contra epidemias que atingiram a corte nos anos 1850. A grande mudança acontece no início da República: por um lado, é criado o feriado municipal e o santo é novamente endossado pelos poderes municipais; por outro, há uma explosão de associações religiosas leigas com o nome de São Sebastião nas primeiras décadas de 1900. O surgimento da umbanda, mais ou menos nessa mesma época, também se valeu do santo e difundiu-o ainda mais, associando-o aos caboclos.

TF – Como um católico e acadêmico como o senhor vê a figura de São Sebastião como padroeiro da cidade?

Vinicius Cardoso – Pessoalmente, vejo com carinho e respeito. Como historiador, ainda estou no processo de entender as razões pelas quais o santo foi escolhido e readequado às diferentes circunstâncias históricas, políticas, religiosas, sociais, culturais. Percebo que São Sebastião tem uma história ligada às origens da cidade, com um apelo, portanto, que outros possíveis padroeiros não teriam. Hoje, é um santo que tem devotos em vários segmentos da sociedade e das religiosidades que se cruzam na cidade. Com São Jorge, reconhecido como padroeiro pela municipalidade, São Sebastião forma uma dupla bastante representativa, embora o processo de elevação a padroeiro tenha sido um tanto diferente em cada um dos casos.

TF – O que mais encontrou, durante o período de pesquisa, sobre os dados históricos da devoção a São Sebastião no Rio de Janeiro?

Vinicius Cardoso – Os relatos mais antigos sobre a aparição de São Sebastião no Rio de Janeiro não apontavam para a data de 20 de janeiro. Há um escrito que diz ter acontecido na data de 9 de julho de 1566. O santo teria sido visto apenas pelos índios. No início dos anos 1700, por fatores que digo no livro, surge a versão de que o santo foi visto na batalha de Uruçu-Mirim, em 20 de janeiro de 1567, a batalha maior da ‘conquista’ da Guanabara. Nos anos 1730, dizia-se que a imagem de São Sebastião, que ficava no altar-mor de sua igreja, no alto do Morro do Castelo, não podia sair de lá, porque protegia a entrada da baía, o castelo e a cidade, como tinham visto em outras ocasiões. Entre 1650 e 1730, os poderes relatavam que São Sebastião protegia a cidade contra grandes epidemias. Assim, a febre amarela, que matou muita gente na Bahia e em Pernambuco, não teria chegado por aqui. Esse argumento foi usado algumas vezes para reiterar a honra que a municipalidade devia ao santo e para que ele continuasse sendo titular da catedral e padroeiro principal.

Quando houve uma tentativa de saque de corsários franceses por aqui, em 1710, uma possível segunda aparição do santo foi sugerida num escrito. Além disso, Santo Antônio e São Januário também foram invocados para a batalha, sendo que este último ganhou até um feriado que durou até 1811, mas que não obteve muita importância. Há outras coisas interessantes que descobri e que não têm a ver exatamente com o santo, mas que podem ser lidas no trabalho.

TF – Como foi o processo do livro ser vencedor do prêmio anual do Arquivo da Cidade?

Vinicius Cardoso – Eu já conhecia o prêmio desde a primeira edição, há alguns anos, buscando acompanhar seus resultados sempre que possível. Quando concluí a tese de doutorado, escrita entre 2013 e 2017. Precisei fazer uma versão final, que demorou a sair. Em 2018, consegui me inscrever no concurso. Agora, felizmente, o livro está sendo publicado.

Livro

A obra pode ser adquirida na Consequencia Livraria e Editora, situada na Rua Alcântara Machado, 36, Sobreloja 210, Centro. Contatos pelo Email: vendas@livrariaconsequencia.com.br, ou pelo fone 2233-7935.

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