9 de setembro de 2017

Frei Luiz Carlos Susin: ‘Ser irmão é um carisma, não uma identidade’

Encontro acontece até amanhã, 10,  quando os frades se reunirão por obediências e visitarão o Convento da Penha

irmaos_080917gPor Érika Augusto e Paulo Henrique

Os irmãos leigos, reunidos desde ontem (7), em Vila Velha (ES), para o II Encontro Nacional de Irmãos Leigos Franciscanos continuaram nesta sexta-feira (8) sua reflexão a respeito dos desafios da vida consagrada. O dia foi marcado pela assessoria de Frei Luiz Carlos Susin, Capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

Na parte da manhã, o frade fez um resgate histórico da vida religiosa consagrada na tradição cristã, destacando 4 momentos principais: vida monacal, vida fraterna, vida apostólica e comunidades educativas e assistenciais. Ele falou também sobre o fenômeno das novas comunidades, o que classificou como um desafio para os religiosos de comunidades tradicionais. Ele convidou os presentes a terem um olhar mais positivo para estas novas comunidades, que possuem uma forte experiência comunitária, mas são muito instáveis por diversos motivos.

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Frei Luiz Carlos Susin: mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma

Um dos temas tratados por Frei Carlos Susin foi o clericalismo e o tradicionalismo, elementos que estão voltando à realidade eclesial, sobretudo nos mais jovens. Para o frade, o problema do clericalismo é que ele cria uma hierarquia que não deveria haver dentro da vida religiosa consagrada. “A gente começa a achar que não só somos melhor que os outros, mas também que a gente é o único meio que detém todas as mediações de graça e de salvação para os outros. Sem o clero não há salvação. É uma absorção de todas as mediações de salvação, bênção, ensinamento, saber, nesse grupo, nessa porção eleita”, afirmou, ressaltando que este não é um problema apenas dos padres, mas de todo movimento ou cristão que acredita ser mais santo, mais perfeito que o outro.

Toda crise é oportunidade

Falando sobre as mudanças na Igreja, o assessor afirmou que a cultura moderna gera mudanças na forma das pessoas se relacionarem com a comunidade e com o sagrado. Citando o italiano Antonio Gramsci, Susin animou os presentes a fazerem do tempo de crise um momento de oportunidade. “No caos algo se cria”, afirmou o frade.

Frei Susin falou sobre a mudança das relações, destacando o “network”, onde as redes de relação se tornam mais importantes, causando uma mudança no modelo social. Se antes acumular dinheiro era sinal de sucesso, hoje as experiências e conexões são mais significativas para os jovens.

Refontizar, regenerar, relançar e requalificar

Estes foram os 4 verbos que conduziram a fala de Frei Carlos Susin na parte da tarde, que continuou sua fala a respeito da vida consagrada. Para ele, estes 4 verbos necessitam de conjugação contínua.

“O carisma se espalha na gratuidade, se torna uma fecundidade. O carisma se transforma num ministério” Frei Susin

Ele destacou que a Ordem Franciscana, desde as origens, nasce a partir do desejo de uma vida fraterna. “O fato do grupo se chamar irmãos menores, é colocar o relacionamento no caminho. Não é ser devoto de Maria, não é ser um pregador. O que vai nos ocupar não vai caracterizar a ordem. O importante é ser irmão”, assinalou.

Francisco de Assis é irrepetível

Falando sobre a vida e a experiência de São Francisco, Susin foi enfático ao afirmar: “Francisco é irrepetível”. Ele destacou ainda a liberdade de Francisco diante das coisas e das pessoas, citando a mediação que o santo fez entre o bispo e o prefeito de Assis e entre o lobo e a população de Gubbio. “Ele faz aliança dos dois lados porque ele não tem interesse próprio, ele pode estar inteiramente junto do lobo e inteiramente junto da cidade. É isso que faz ele ser absolutamente fraterno em todas as direções. Por isso a capacidade de conciliação, de fraternização. Isso é fecundidade da fraternidade”, afirmou.

O frade destacou que todas as pessoas possuem dons específicos, mas que quando estes dons são colocados a favor da comunidade, eles passam a ser carismas, que são marcas da gratuidade e da entrega. Para ele, é este carisma que marca a vocação do irmão leigo. “O carisma se espalha na gratuidade, se torna uma fecundidade. O carisma se transforma num ministério”, concluiu.

Na parte da tarde, os religiosos fizeram um plenário com perguntas ao assessor. Após o jantar, houve um painel de experiências missionárias, com partilha das missões em Marrocos, Angola, Mato Grosso e Amazônia. Sobre sua experiência no Marrocos, Frei Augusto Lessa, OFM falou da concretização da fraternidade e da minoridade franciscana através da missão: “Lá vivemos de fato a minoridade. Um lugar onde as pessoas questionam a todo o momento a nossa presença e não há um posicionamento social, ali nos sentimos realmente menores. Por não termos outras oportunidades de convívio, a fraternidade é vivenciada inteiramente”, partilhou.

O encontro acontece até domingo (10). Amanhã os frades se reunirão por obediências e após o almoço visitarão o Convento da Penha e participarão de missa no Santuário Divino Espírito Santo, em Vila Velha (ES).

►Confira o vídeo do segundo dia
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