7 de outubro de 2020

Cardeal Orani: a nova Encíclica social “Fratelli tutti” (IV)

Com este artigo sobre os capítulos 5 a 7 da nova encíclica “Fratelli tutti”, sobre a fraternidade e a amizade social, do Papa Francisco, avanço um pouco mais na minha apresentação desse documento que muito tem a dizer a todos os fiéis católicos e demais homens e mulheres de boa vontade

cq5dam.thumbnail.cropped.750.422Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist. – Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ – Vatican News

O capítulo V, com o título “A política melhor” (n. 154-197), é um convite muito prático a superar as “más” ou até as consideradas “boas” políticas por uma “melhor”. Que é essa política melhor? – É “a política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum” (n. 154; cf. n. 176-177) e que vista desta maneira, “é mais nobre do que a aparência, o marketing, as diferentes formas de maquilhagem mediática” (n. 197). Ela se choca com a forma liberalista e populista de fazer política, que é longamente explanada na “Fratelli tutti” (cf. n. 155-161). No entanto, o Santo Padre recorda que populismo é diferente de popular, este último vocábulo se aplica apenas a quem promove o bem do povo em geral, não só oferecendo dinheiro aos pobres, mas, sim, garantindo-lhes vida digna. Afinal, “por mais que mudem os sistemas de produção, a política não pode renunciar ao objetivo de conseguir que a organização duma sociedade assegure a cada pessoa uma maneira de contribuir com as suas capacidades e o seu esforço” (cf. n. 162).

Ainda: são falsamente acusados como “populistas quantos defendem os direitos dos mais frágeis da sociedade” (n. 163); todavia, não pode haver garantias aos sadios direitos particulares sem a presença apoiadora do Estado, dado que “de fato, não há vida privada, se não for protegida por uma ordem pública; um lar acolhedor doméstico não tem intimidade, se não estiver sob a tutela da legalidade, dum estado de tranquilidade fundado na lei e na força e com a condição dum mínimo de bem-estar garantido pela divisão do trabalho, pelas trocas comerciais, pela justiça social e pela cidadania política” (Paul Ricoeur, ‘Le socius et le prochain’, in: Idem, Histoire et vérité (Paris 1967), 122). A verdadeira caridade inclui tudo isso e nada desperdiça do que pode servir – de verdade e não por interesses escusos – o próximo. Sim, afirma o Papa que “às vezes deparamo-nos com ideologias de esquerda ou pensamentos sociais cultivando hábitos individualistas e procedimentos ineficazes, porque beneficiam a poucos; entretanto a multidão dos abandonados fica à mercê da possível boa vontade de alguns. Isto demonstra que é necessário fazer crescer não só uma espiritualidade da fraternidade, mas também e ao mesmo tempo uma organização mundial mais eficiente para ajudar a resolver os problemas prementes dos abandonados que sofrem e morrem nos países pobres” (n. 165). Também a política econômica ativa, que é necessária, deve ser acompanhada pela solidariedade e confiança mútua, tendo a dignidade humana no centro (n. 168) e o apoio ao chamados “movimentos populares” (n. 169).

Seria importante uma autoridade internacional capaz de garantir a vivência da justiça entendida como o “dar a cada um o que lhe é devido” (n. 171). Contudo, “quando se fala duma possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito (Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 67: AAS 101 (2009), 700-701.), não se deve necessariamente pensar numa autoridade pessoal. Mas deveria prever pelo menos a criação de organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais” (n. 172). Não se pode esquecer que, na debilidade ou ausência de atuação de Organizações Internacionais, alguns grupos civis têm ajudado a suprir a lacuna (cf. n. 175). Em tudo, no entanto, há de reinar a caridade, síntese de toda lei (cf. Mt 22,36-40). “Esta caridade política supõe ter maturado um sentido social que supere toda a mentalidade individualista” (n. 182), pois só “a caridade pode construir um mundo novo” (n. 183), à luz da razão e da fé, sem relativismos (cf. n. 185). Ainda mais: “Esta caridade, coração do espírito da política, é sempre um amor preferencial pelos últimos, que subjaz a todas as ações realizadas em seu favor” (cf. São João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 572-574; Idem, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 11: AAS 83 (1991), 806-807). Sejam pois lembrados os princípios “de subsidiariedade, inseparável do princípio de solidariedade” (n. 187) e uma política voltada a “eliminar efetivamente a fome” (n. 189).

Vem a título de fecho deste capítulo um ponto destacado por Francisco: “Neste contexto, gostaria de lembrar que eu juntamente com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb pedimos ‘aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente’ (Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum (Abu Dhabi 4 de fevereiro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 05/II/2019), 21). E quando uma determinada política semeia o ódio e o medo em relação a outras nações em nome do bem do próprio país, é necessário estar alerta, reagir a tempo e corrigir imediatamente o rumo” (n. 192).

O capítulo VI, “Diálogo e amizade social” (n. 198-224), reafirma – em suma – um verbo muito caro ao atual Pontífice: dialogar (cf. n. 198) e promover, apesar das dificuldades, a “cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro” (n. 215; cf. n. 216-217). Tal diálogo jamais se confunde com “uma troca febril de opiniões nas redes sociais, muitas vezes pilotada por uma informação mediática nem sempre fiável” (n. 200) com menosprezo a quem pensa diferente (cf. n. 201). Aliás, essa “falta de diálogo supõe que ninguém, nos diferentes setores, está preocupado com o bem comum, mas com obter as vantagens que o poder lhe proporciona ou, na melhor das hipóteses, com impor o seu próprio modo de pensar” (n. 202). Sim, “o diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos” (n. 203). Nisso, se bem usada, “a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos” (n. 205).

Contudo – e isso é deveras importante –, o diálogo não pode ceder lugar ao relativismo a professar sermos incapazes de chegar à verdade como tal (cf. n. 206), ao qual se junta “o risco de que o poderoso ou o mais hábil consiga impor uma suposta verdade” (n. 209). E dá exemplo do não matar. “É uma verdade irrenunciável que reconhecemos com a razão e aceitamos com a consciência. Uma sociedade é nobre e respeitável, nomeadamente porque cultiva a busca da verdade e pelo seu apego às verdades fundamentais” (n. 207). “Temos de nos exercitar em desmascarar as várias modalidades de manipulação, deformação e ocultamento da verdade nas esferas pública e privada” (n. 208). Afinal, as verdades morais básicas vão além do mero consenso, estão inscritas na natureza humana (cf. n. 211-212).

Mais: “Se devemos em qualquer situação respeitar a dignidade dos outros, isto significa que esta não é uma invenção nem uma suposição nossa, mas que existe realmente neles um valor superior às coisas materiais e independente das circunstâncias e exige um tratamento distinto” (n. 213). Nessa sociedade, há de se reconhecer no outro o direito de ser ele mesmo, sem violência, dado que “por trás da repulsa de certas formas visíveis de violência, muitas vezes esconde-se outra violência mais dissimulada: a daqueles que desprezam o diferente, sobretudo quando as suas reivindicações prejudicam de alguma maneira os próprios interesses” (n. 218).

Também somos convidados a respeitar os povos nativos, especialmente os indígenas (cf. n. 220), bem como abrirmo-nos ao diálogo com todos os povos e até a ceder algo pelo bem comum (cf. n. 221). Já contra o individualismo consumista (cf. n. 222), São Paulo propõe “um fruto do Espírito Santo com a palavra grega chrestotes (Gl 5,22), que expressa um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta. A pessoa que possui esta qualidade ajuda os outros, para que a sua existência seja mais suportável, sobretudo quando sobrecarregados com o peso dos seus problemas, urgências e angústias” (n. 223) e é levada a viver a amabilidade do “com licença”, “desculpe”, “obrigado” (n. 224).

Ao concluir este capítulo da “Fratelli tutti”, a tratar da amizade social, não posso, enquanto monge cisterciense agradecido a Deus pelo dom da minha consagração, deixar de recomendar a obra de um grande Padre cisterciense. Trata-se da “Amizade espiritual”, de Aelredo de Rievaulx, monge e abade do século XII, que ajuda a cada ser humano a, valendo-se dos sadios laços humanos, transcendê-los ou elevá-los a Deus. Para Aelredo, a amizade deve ser uma escada que conduz ao céu (cf. Amizade espiritual. Oração pastoral. São Paulo: Cultor de Livros, 2017). Elevemo-nos – pela graça divina que a ninguém falta –, com esse monge inglês, a tão altos patamares espirituais!

Chegamos, assim, ao capítulo VII que tem por título “Percurso dum novo encontro” (n. 225-270) capazes de nos conduzir à paz sem desejos de vingança (cf. n. 226-227), mas a sermos promotores da reconciliação e do encontro (cf. n. 229 e 232). Importa perdoar o rival de fora como se fosse membro da nossa família (cf. n. 230). Embora longo, devo apenas apontar os itens tratados que recordam, na sua quase totalidade, temas trabalhados recentemente pelo Papa Francisco e que abordei, inclusive, de algum modo, em meus artigos à imprensa.

Podemos dizer que o Santo Padre recomenda neste capítulo: 1) a amizade social com os mais pobres (cf. n. 233), uma vez que a desigualdade e a falta de inclusão social pode ser geradora de violência (cf. n. 234-235); 2) o perdão e a reconciliação (237-239) superando o mal com o bem (cf. n. 243), apesar  de que “amar um opressor não significa consentir que continue a ser tal; nem levá-lo a pensar que é aceitável o que faz” (n. 241); 3) não se esquecer de fatos graves da história para não repeti-los: A Shoah, os bombardeios atômicos de Hiroxima e Nagasáqui (cf. n. 246-247), “as perseguições, o comércio dos escravos e os massacres étnicos que se verificaram e verificam em vários países, e tantos outros factos históricos que nos fazem envergonhar de sermos humanos” (n. 248). Alguém poderia perguntar: mas como entender o Papa se ele convida a perdoar, e, ao mesmo tempo, a não esquecer dos erros cometidos?

Eis sua própria explicação: “Aqueles que perdoam de verdade não esquecem, mas renunciam a deixar-se dominar pela mesma força destruidora que os lesou” (n. 251). O que também não redunda em impunidade: quem erra tem de pagar pelo erro (cf. n. 252); 4) condena a guerra injusta e pede que elas nunca mais aconteçam, pois todas deixam o mundo pior do que antes (cf. n. 256-262); 5) recrimina a pena de morte, a prisão perpétua e as ações extrajudiciais (cf. n. 263-268) e 6) defende um mundo de paz no qual se cumpra a profecia de Isaías para os tempos messiânicos: “transformarão as suas espadas em relhas de arado” (2,4).

Eis, assim, mais um trecho da “Fratelli tutti” a cada irmão e irmã interessado(a) em meditar, com alegria, este novo documento social da Igreja.

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