20 de abril de 2017

Entrevista: Frei Rogério Goldoni Silveira

“A minha vocação é a vida consagrada”

Atualmente morando em Londrina, o religioso leciona na PUCPR e presta assessoramento em vários cursos bíblicos na região

foto principal da matéria

Frei Rogério Goldoni: “toda resignação valeu a pena”

Por Emilton Rocha / Foto: Angela Zolhof 

“Acabou!” Com essa palavra, num misto de satisfação e alívio, postada em sua página no Facebook no dia 29 de março, Frei Rogério Goldoni Silveira (OFMCap), 34 anos, agradecia a Deus pela conquista que lhe foi assegurada após pesquisar e estudar avidamente durante três anos e concluir exitosamente o seu mestrado em Teologia Bíblica, na PUC Rio. “Agradeço ao Senhor por tudo o que me proporcionou nesse tempo de estudos e pesquisa”, escreveu.

Em média, os cursos de mestrado têm a duração de dois anos, porém o que ele fez levou três em função da particularidade do estudo do Grego e do Hebraico – um ano inteiro dedicado a essas duas línguas.

Natural de Medianeira (PR), adepto de uma boa leitura, de futebol e de violão nas horas de folga, Frei Rogério entrou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos há 17 anos, professando os votos simples em 2005 e os votos solenes em 2008. Graduado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com pós-graduação em Teologia Bíblica e outra em metodologia no Ensino Superior, atualmente mora em Londrina, onde leciona na PUCPR e presta assessoramento em vários cursos bíblicos na região. Aos amigos, pede para que rezem por ele para que sempre faça a vontade de Deus e viva a palavra dele acima de tudo, “pois estudar a Bíblia não é tão importante quanto deixar a palavra frutificar na nossa vida”, afirma. Abaixo, ele fala em entrevista ao site.

Como se sente agora, após a conclusão do curso?

Satisfeito com todo o investimento do meu tempo. Quando eu morei no Rio, muitas pessoas me convidavam para sair, ir até a praia… Eu sempre ficava no convento, estudando, pois fui morar no Rio de Janeiro com esse foco. Deixei de conhecer muitos lugares, mas toda resignação valeu a pena.

O que abrange exatamente a Teologia Bíblica e qual é a sua principal função?

A teologia bíblica é uma área específica da Teologia. Ocupa-se com o estudo aprofundado da Sagrada Escritura, a partir de sua língua original (hebraico e grego) e com a utilização de um método próprio, chamado método histórico crítico. O trabalho o biblista é o de aplicar esse método para perceber qual a maior profundidade e qual o conteúdo comunicado no texto bíblico.

O que o levou a escolher como tema da dissertação “A Soberania Universal de Adonai”?

Na verdade, escolhi primeiro o Sl (Salmo) 96. O título é questão secundária, pois o foco mesmo é a aplicação do método histórico-crítico ao Sl 96, um poema hebraico [leia ao final]. O título “a soberania universal de YHWH” é decorrência do conteúdo comunicado no Sl 96.

O que mais chama a sua atenção em relação ao Salmo 96?

É um poema hebraico muito rico (no hebraico) em assonâncias, rimas e outros recursos poéticos que buscam enfatizar a centralidade em YHWH. A última seção (Sl 96,11-13) é especial, pois conclama todos os elementos da criação para que rejubilem de modo festivo e com muito barulho diante do julgamento de YHWH. Logo, pergunta-se: porque tanta festa diante de um julgamento? É pelo fato de o julgamento de YHWH, no Sl 96, não ser um chamado às contas, uma punição, mas retomada de uma situação de vida que era crítica.

Você pretende celebrar missas futuramente?

Não pretendo. Escolhi ser irmão, não ordenado. Poderia ter pedido ordenação no ano de 2008,

mas sempre achei que a minha vocação é a vida consagrada, sem ser presbítero. Quem sabe um dia eu possa mudar de opinião. A vocação não é minha, mas é de Deus. Se ele quiser que eu dê esse passo, darei. Caso contrário, continuarei muito realizado na opção vocacional que fiz.

A quem, em especial, você agradeceria pelo incentivo?

Já que me dirijo à comunidade do Santuário São Sebastião dos Freis Capuchinhos, gostaria de agradecer ao caríssimo irmão Frei Dimas, que me acolheu na fraternidade em Niterói e, mais que um irmão, foi um generoso pai. Aos confrades capuchinhos da província do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, na pessoa de frei Luiz Carlos Siqueira, atual provincial, por ter me acolhido entre os seus confrades e por sempre agir fraternalmente comigo. Também ao então guardião, Frei Arles, por ter me ajudado a me sentir em minha própria fraternidade. Além disso, à esta comunidade, amigos e amigas, que me ajudaram a voltar para o Paraná como um frade melhor e mais fraterno.

Resumo do Salmo 96

Por Frei Rogério Goldoni Silveira

O Sl 96, objeto de estudo da presente pesquisa, é uma poesia hebraica caracterizada como um louvor descritivo, enriquecido com o tema do reinado de YHWH. Em contraste com os três primeiros livros do Saltério (cf. Sl 3–89), o livro IV (cf. Sl 90–106) abre nova perspectiva, com um ideal teocrático, avultando a ação soberana de YHWH que age sem um regente humano. E o Sl 96 potencializa os elementos relacionados a esta ação de YHWH, apresentando-o como rei (cf. v. 10b), criador (cf. v. 5b) e juiz (cf. v. 13), e inaugurando o tema da sua soberania universal. Como unidade poética, o Sl 96 é estruturado em três seções que são corroboradas pelos elementos sintáticos, semânticos e estilísticos.

Em cada seção há um sujeito expresso, propondo Israel como anunciador da boa nova da ação salvífica de YHWH (cf. v. 1-3), convidando as famílias dos povos a acercarem-se de YHWH e dançarem diante dele (cf. v. 7-9), e conclamando todo o cosmos a exultar de alegria com intensidade (cf. v. 11-12). Nesse convite a sujeitos distintos também se revela a universalidade de YHWH, mas sempre com a cuidadosa e enfática centralidade em YHWH, dada no emprego do sufixo de terceira pessoa, masculino, singular (וֹ), no pronome pessoal הוּא e no Tetragrama Sagrado. Como hino de louvor, o Sl 96 traduz um clima de intensa alegria, com o cântico novo cantado pelo povo que celebra os feitos de YHWH (cf. vv. 1-9) e o seu reinado (cf. v. 10), e com toda a criação que se agita de modo barulhento e festivo em razão da sua vinda (cf. vv. 11-13).

clear